terça-feira, novembro 16, 2004

Financiamento dos Municípios


O jornal Público de hoje, baseando-se numa auditoria do Tribunal de Contas, informa que as autarquias têm vindo a aumentar o seu nível de endividamento por recurso a outros esquemas de financiamento que não empréstimos, ultrapassando desse modo o limite de “endividamento (líquido) zero” imposto pelo governo. Por um lado temos que reconhecer a criatividade dos Municípios; por outro lado temos de lhes perguntar se estão conscientes das consequências financeiras dessa cavalgada – porque a verdade é que os limites de endividamento “legal” já são por si bastante generosos.

Sobre o financiamento local escreveu a fiscalista Marta Rebelo o artigo Dar Crédito aos Municípios… (DN de 7.Nov.2004) colocando oportunas questões: uma é a de saber porque é que o Governo não trata da mesma forma todos os sectores da administração no que toca ao cumprimento do Pacto de Estabilidade, menorizando as Autarquias. Outra é a pergunta sobre se a cultura financeira do sector local revela eficiência na gestão dos recursos. Por vezes parece que os Municípios se acham acima da necessidade de provar a boa gestão financeira.

Entretanto, o líder da oposição prometeu que, no caso de ganhar as próximas legislativas, criará "um novo modelo de financiamento para as autarquias locais", que as liberte da dependência da construção, o que tem sido "muito negativo para o urbanismo" em Portugal; mas há quem o prometa para mais cedo. Já o Governo tem um grupo de trabalho, coordenado pelo Professor Nogueira Leite, a preparar uma proposta equivalente mas que torne os municípios menos dependentes do Orçamento de Estado.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Guerra às pausas


O jornal Público revela que Norbert Walter, "importante economista do Deutsche Bank", lançou a ideia de que as pausas para fumar no local de trabalho não devem ser remuneradas - isto numa entrevista ao "Bild am Sonntag". Ao princípio ainda pensei que se tratasse de uma proposta coasiana no sentido de equilibrar o mercado da poluição, sendo os montantes não pagos aos fumadores canalizados para os fumadores passivos, por exemplo - e imaginei logo o meu rendimento a crescer. Mas a notícia não permite tais devaneios: o que Norbert Walter defende é que apenas o tempo de trabalho efectivo seja pago, circunstância que, segundo ele, permitiria às empresas baixar "bastante" as despesas com salários. A medida estender-se-ia também a outros vícios, tais como o do café.

Pode-se controlar o trabalho efectivo de duas maneiras - medindo o output real ou medindo o tempo de presença no posto de trabalho - e eu supunha que esta última seria a menos eficiente, já que se pode estar lá sem produzir grande coisa. Calculo também que estas pausas - ainda que eu não seja dependente de nenhuma delas - tenham um papel importante no equilíbrio psicológico do trabalhador e, logo, também na produtividade.

Creio que todos temos consciência de que o Estado Providência não tem condições para sustentar muitas das suas regalias, incluindo a duração reduzida da jornada de trabalho, mas retirar as pausas parece-me ser "pior a emenda do que o soneto". As pessoas não são autómatos.

sábado, novembro 13, 2004

O esquizofrénico livro do Professor Cavaco Silva


Em 1976, recém chegado da Universidade de York (Inglaterra) onde se doutorara, Aníbal Cavaco Silva publicou o livro Política Orçamental e Estabilização Económica, obra básica de estudo da cadeira de Economia Pública, do ISE, dirigida pelo Professor, com Manuela Ferreira Leite como assistente.

Era um bom livro de estudo, essencialmente keynesiano, basicamente instrumental, com desenvolvimento matemático dos diversos multiplicadores para formulação de políticas orçamentais de estabilização.

Cavaco Silva passou depois para a Universidade Nova (nas suas memórias explica que aceitou o convite que lhe dirigiram porque Económicas, na sequência da Revolução de Abril, já não servia para ensinar Economia) e o livro, com desenvolvimentos importantes, conheceu nova edição em 1982, agora com o título de Finanças Públicas e Política Macroeconómica. Uma nova edição surgiu em 1992, com uma importante inovação: a adição de um novo capítulo da autoria do Professor João César das Neves. É nesta colaboração que reside a esquizofrenia deste livro.

Afinal, não é este mesmo João César das Neves aquele que diz que a divisão da teoria entre micro e macro é enganadora, preferindo por isso a designação de “teoria da economia agregada”? O que faz então o Professor da Universidade Católica num livro keynesiano, num livro sobre macroeconomia?

Eis uma explicação possível: o livro de Cavaco Silva é bom e é útil mas, como é sabido, o keynesianismo caiu em “desgraça”, pelo menos no discurso oficial e académico. Governos de todo o mundo continuam a aplicar as políticas de “sintonia fina”, mas o discurso público emigrou para outras paragens. O paradoxo desta situação revela-se em muitas situações e, no caso de Cavaco Silva, este decidiu pedir a César das Neves que equacionasse o problema – uma ideia inteligente.

O que o capítulo escrito por JCN diz, em síntese, é isto: OK, o corpo deste livro é keynesiano, mas eu agora vou falar-vos de um outro paradigma, o neoclássico. Apresenta então uma curta excursão pela história do pensamento económico, partindo dos clássicos, passando à “revolução keynesiana” (sic entre aspas), depois à síntese neoclássica, depois aos monetaristas e finalmente à revolução clássica (sic sem aspas): Arrow, Debreu, Lucas, etç. João César das Neves conclui o seu capítulo com uma parábola heliocêntrica: quando surgiu o modelo de Copérnico, apesar de ser mais avançado do que o de Ptolomeu, em termos práticos, para cálculo da posição dos planetas, dava resultados inferiores. Moral da história: os keynesianos podem ter, ainda, um instrumental que para cálculo prático é mais eficiente, mas o modelo neoclássico é superior e acabará por prevalecer. Portanto, estudem as equações do Professor Cavaco Silva, apliquem-nas, mas esqueçam a teoria subjacente.

Tudo muito interessante, mas que faz desta obra o mais esquizofrénico livro de teoria económica.

sexta-feira, novembro 12, 2004

O valor (económico) de estar vivo


Um estudo realizado em 2003 por Gary Becker, Tomas Philpson e Rodrigo Soares, The Quantity and Quality of Life and the Evolution of World Inequality, tenta avaliar a convergência entre os países, ao longo das últimas décadas, incorporando a longevidade num conceito de “rendimento global” (”full” income). A conclusão é a de que os países que partiram (em 1965) com um menor rendimento, cresceram mais em termos deste “rendimento global” dos que os países mais desenvolvidos. A taxa média de crescimento foi de 140 % para os países desenvolvidos, contra 192 % dos países em desenvolvimento.

Donde surge este aparente paradoxo? A evidência mostra que, entre os diferentes países, existe convergência na longevidade, embora ela não ocorra no rendimento per capita. Como também existe uma correlação positiva entre a longevidade e o rendimento per capita, aquela relação deve estar a mudar ao longo do tempo. Ou seja: a longevidade aumenta para certos níveis de rendimento, e este aumento tem sido maior em países mais pobres.

O estudo apresenta ainda, para o conjunto de países analisados, quais as principais causas de morte em termos de influência nesta convergência. Para calcular o valor económico dos ganhos de longevidade e a sua decomposição para cada causa de morte, o estudo recorre ao rendimento per capita, às taxas de sobrevivência, a uma forma especial da função de utilidade (ou seja, a disponibilidade para pagar pela extensão da esperança de vida) com duas dimensões: a substituibilidade do consumo em diferentes períodos de vida (ou elasticidade de substituição inter-temporal) e o valor de estar vivo relativamente a estar morto. Doenças infecciosas, respiratórias e do sistema digestivo, condições congenitais e peri-natais e outras “mal definidas”, ocupam os primeiros lugares.

Os economistas têm esta tendência para quantificar, em termos monetários, aspectos como o valor económico de estar vivo, ou de viver mais uns anos. O estudo refere uma outra investigação (The economic value of medical research) que avaliou o valor agregado da variação média anual da esperança de vida nos EUA entre 1970 e 1990, tendo obtido uma estimativa que corresponde a mais de metade do valor do PNB real de 1980. Apesar do aspecto desagradável, ou pouco romântico, desta valorização monetária da vida, tais cálculos são úteis para ponderar e ajudar a escolher os investimentos públicos em termos da sua utilidade objectiva.

Relativamente às conclusões do estudo de Becker, pode-se argumentar que viver mais tempo não significa viver melhor – embora a maioria das pessoas pareça valorizar mais a longevidade do que a saúde imediata. Creio que uma opção de escolha faustiana entre “viver mais” ou “viver melhor” daria vantagem à primeira. O que prefeririam os povos: maior rendimento per capita ou maior esperança de vida? E você?

Deixem-me adivinhar: ambas as coisas, não é?

quinta-feira, novembro 11, 2004

Económicas e Bagaceiras


O Professorices chamou a atenção para a delirante criatividade que se espelha na designação de uma série de novas licenciaturas, dando origem a um interessante e participado debate sobre o abusivo (?) uso do vocábulo “ciência” em algumas dessas designações.

De facto, alguns cursos superiores incorporam hoje a designação de “ciências” com o aparente objectivo de lhes dar um status especial, apesar da duvidosa cientificidade das matérias em causa: ciências jurídicas, ciências da comunicação, ciências musicais, ciências políticas, etç.

O que é curioso é que a Economia, em Portugal, já sofreu desta maleita: quando surgiu a primeira escola especificamente destinada a formar economistas, logo se chamou “Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras”, abreviadamente ISCEF (ou ISSEF, numa altura em que ainda se grafava “sciências”). Compreende-se o esforço pois que na altura a profissão não tinha prestígio - não dava para Ministro, por exemplo, nem para gerir empresas, que era coisa para engenheiros e advogados. Os pais de António Manuel Pinto Barbosa – que viria a ser o grande reformador da escola nos anos 40 - ficaram muito desgostosos quando lhes anunciou que queria seguir uma carreira académica em Economia. Foi também o Professor Pinto Barbosa quem recordou este delicioso episódio (numa sua biografia escrita por João César das Neves e Francisco Azevedo e Silva):
”Já depois da minha formatura, era eu professor, apareceu uma grande notícia nessa altura: que um dos nossos diplomados tinha conseguido o lugar de chefe de repartição na Câmara Municipal de Lisboa. O Instituto quase que embandeirou em arco.”
Perante a pomposa designação, logo a presunção foi castigada com o apodo de “económicas e bagaceiras”. Uma “económica” era a designação popular da célebre sopinha que então, como ainda hoje, constituía a base alimentar de muito alfacinha; “sai uma económica!” era um grito-de-ordem comum nas tascas e restaurantes baratos; um dos métodos então existentes para enriquecer a “componente calórica” da sopa era mergulhar, na água a ferver, uma bola de sebo presa por um fio, pois era reutilizável, tal como a bala do Solnado na “Ida à guerra”. A "bagaceira", claro, era uma aguardente de bagaço. Uma económica e uma bagaceira elevavam, conjuntamente, o corpo e o espírito: era uma correlação forte.

Mas voltando ao Quelhas (outra das designações populares da escola, nome da rua) em lugar de “económicas e bagaceiras” tenho ouvido, mais recentemente, “alcoólicas e bagaceiras”; não sei se é designação antiga – eu não me lembro dela – mas parece-me a outra mais abrangente e mais alfacinha, além de que esta última sofre de uma nítida redundância.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Ordens: polícias das Universidades?


Luís Conraria, na sequência do Professorices, levantam o problema do corporativismo das Ordens profissionais, em termos com que concordo. No entanto é possível que seja o mau funcionamento de alguns dos mecanismos da nossa vida colectiva que está a alimentar esta corporativice (ou corporativite).

Por exemplo: estarão as Universidades a desempenhar suficientemente bem o papel da avaliação e graduação dos conhecimentos? Ou: existe uma razoável uniformidade, entre as diversas Universidades e para cursos equivalentes, dos sistemas de avaliação? No caso de não ser assim, criam-se argumentos favoráveis ao crivo suplementar das Ordens.

Mas não me parece que seja solução, para tais problemas, a criação de novos exames e novos estágios, porque então deixamos de ter um problema para ter dois: nas Universidades e nas Ordens.

A situação chega ao ridículo, como é o caso da Ordem dos Arquitectos, de se pronunciarem sobre o conteúdo das disciplinas, propondo alterações, como condição para a famosa “creditação”, ou “acreditação”. A Ordem dos Economistas também se está a pôr em bicos de pés, com esse esquema das creditações dos cursos, tentando fazer-se necessária, quiçá imprescindível: é sempre a velha luta por uma fatia do poder. Conheço um caso de recusa de inscrição, nesta Ordem, de um licenciado em Gestão do Sector Público (do ISCSP) por “não ser da área da Economia”.

Creio, no entanto, que as Ordens podem ser úteis em aspectos deontológicos relacionados com a prática profissional, e também na definição de estratégias para o ensino, mas a montante da Academia e não como polícias à porta das Universidades.

Economia, Imperialismo e Drogas


O Imperialismo da Economia define-se como a convicção de que o núcleo central da Economia – a teoria da escolha – é, em princípio, aplicável a todo o comportamento humano. Por exemplo: economistas (como Gary Becker) explicando fenómenos como a descriminação racial, o crime ou o casamento, por aplicação da teoria económica.

Será isto sequer um problema? A Antropologia e a Sociologia também podem explicar as “compras” feitas por um consumidor num qualquer centro comercial. A divisão da realidade em “disciplinas” é puramente artificial, por isso não é de estranhar que as fronteiras se esboroem com facilidade. Já me parece inadequado afirmar que só existe uma ciência social: a Economia.

A propósito desta “invasão” de outras áreas disciplinares pela Economia, refira-se o estudo de Becker, Grossman e Murphy sobre The Economic Theory of Illegal Goods: The Case of Drugs.

O estudo começa por demonstrar que, sendo o valor social de um bem inferior ao seu valor privado, a sociedade preferirá que o consumo se torne legal, restringindo o consumo através de uma taxa monetária penalizadora. No entanto, reconhece que esta conclusão é contraditória com o facto, observado, da ilegalização, ao longo da história, do consumo de drogas, da prostituição e do jogo, por exemplo.

Os autores acreditam que a explicação se encontra nos diferentes impactos destas duas estratégias na classe média, por um lado, e nas classes mais pobres, por outro. A classe média preferiria a ilegalização, as classes mais pobres prefeririam a taxação. A ilegalização é um dissuasor mais efectivo para classes com maiores rendimentos: as penas de prisão são socialmente mais gravosas, enquanto que o seu maior rendimento torna a taxação menos efectiva. Passa-se o oposto com os mais pobres. Como a classe média tem maior poder político do que os pobres, é esta a opção que tem sido adoptada.

Antes do degelo


Escreveu Agustina Bessa-Luís:
"Não é o amor que interessa aos homens, mas as crenças naturais na capacidade de sentir. Isso explica como pessoas de tão elevada linhagem mental, como Rousseau, se deixasse manobrar pela sua governanta, que era analfabeta e o meteu numa série de intrigas vergonhosas com os amigos. Ela decerto desencadeou funções do seu cérebro que não são as que determinam o conhecimento. Funções do inconsciente em que o tempo não tem medida e é intemporal. É possível que as mulheres exerçam uma influência para além de qualquer razão nesse inconsciente que é a única barreira perante a morte."
Esta senhora, já se sabe, com o seu arzinho de camponesa inofensiva, avança com um bisturi em cada mão e vai revolvendo as entranhas do ser humano, até um ponto em que os despojos ficam irreconhecíveis - ou em que nós já não os queremos reconhecer.

Este discurso agustiniano cola muito mal ao paradigma dominante de que os homens e as mulheres são (ou devem ser) iguais, apesar de todas as evidências em contrário. Parece remeter para um passado próximo em que a mulher era, em termos económicos, a escrava do homem, a empregada do homem - os livros estão repletos de situações desse tipo. Mas a análise sibilina parece alcançar um território mais longínquo, tão longínquo que mal distinguimos o que supostamente nos é apontado, embora queiramos muito ver o que é na realidade.

"Antes do degelo" significa o quê? Antes da idade adulta? Antes da civilização? Antes da hominização? Antes do conhecimento?

[Antes do Degelo, Agustina Bessa-Luís, 2004 (página 221)]

terça-feira, novembro 09, 2004

Porquê a guerra? Porque sim.




Nothing for Money: artigo de Paul Krugman (de 14 de Março de 2003) onde e ele explica a alguns americanos preocupados que não é por causa do conflito Euro-versus-Dolar que os EUA vão para a Guerra.

"Portanto, esta particular teoria da conspiração está errada. Então, perguntais vós, porque está esta gente tão determinada em ter a sua guerra? A resposta é porque sim. Apenas porque sim."

Crescimento económico

Artigo de Paul Romer sobre Economic Growth: "o crescimento económico ocorre sempre que as pessoas pegam em recursos e os transformam em algo que é mais valioso", mas com ênfase na criatividade: "cada nova geração apercebe-se dos obstáculos colocados ao crescimento pela limitação dos recursos e efeitos colaterais indesejáveis [como a poluição] caso não sejam descobertas novas ideias". Trata-se de um artigo para uma enciclopédia - The Fortune Encyclopedia of Economics - e recorre a uma curiosa metáfora fisico-quimico-culinária.

FMI em auto-avaliação


O Diário de Notícias faz referência a um estudo realizado por dois investigadores do FMI, Catia Batista e Juan Zalduendo, segundo o qual "as previsões de crescimento avançadas pelo Fundo Monetário Internacional têm pecado por excesso de optimismo".

O estudo, Can the IMF's Medium-Term Growth Projections Be Improved?, desenvolve uma variante do modelo de crescimento neoclássico que, embora não respondendo às críticas que lhe têm sido feitas - e que são sumariamente referidas no estudo - tenta "rodear" algumas da limitações. Os investigadores reconhecem que as previsões do FMI tiveram um "fraco" desempenho em algumas regiões e que é possível melhorar os instrumentos de previsão de crescimento utilizados.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Que românticos que nós somos


Numa entrevista a Paula Rego a jornalista Ana Sousa Dias, num estilo entre o perguntar e o insinuar cúmplice, opinou que lhe devia custar muito separar-se das obras, ao que a pintora retorquiu: não; vender é uma maravilha.

Pois é, mas a intelectualidade continua a achar, romanticamente, que a arte é celestial e o comércio é vil. O que sentirá esta gente quando recebe o ordenado: vergonha?



Nova "marca" com fraco design


O IPIMAR oferece uma camisola a quem encontrar uma destas marcas que aquele organismo de investigação andou a colocar em sardinhas durante o Verão. Para além da marca tem de se indicar a data e local onde foi encontrada, bem como a data e local de captura do sardináceo. Acho muito bem o apelo à colaboração da população, mas parece-me que quem não souber da campanha e encontrar apenas a marca na sardinha não vai longe apenas com a informação ali impressa.

Entropia e (de)crescimento


Não me parece difícil considerar a metáfora do “não há almoços grátis” como o equivalente, para a Economia, da 1ª lei da termodinâmica. Mais problemática é a transposição para a Economia do fenómeno físico da entropia – ou da 2ª lei da termodinâmica. No entanto é isso precisamente que tentam fazer economistas como Nicholas Georgescu-Roegen, Hazel Henderson e William Krehm.

Georgescu-Roegen (1906-1994), economista romeno, escreveu sobre este assunto o livro “The Entropy Law and the Economic Process”, de 1971. Para além de ter procurado integrar a economia e a termodinâmica, Georgescu-Roegen também o fez com a biologia evolutiva e a ecologia, pelo que é conhecido como o pai da economia ecológica:

Em termos de metáfora, leis como a da queda tendencial da taxa de lucro (de Marx) e dos rendimentos decrescentes podem ser considerados como entropias do sistema económico. E parece também evidente que tem de se reflectir na actividade económica a entropia que ocorre no mundo material. Mas estes economistas vão mais longe e tentam instituir a entropia como lei económica.

A lei física da entropia é bastante contra-intuitiva e parece ser negada a todo o momento perante os nossos olhos: dizem-nos que uma vez misturados dois líquidos de cores diferentes, eles já não se voltam a separar: o nível de organização da matéria corre inexoravelmente de patamares superiores para patamares inferiores, e chegará um dia em que tudo estará “misturado”, inerte e imóvel. Porém, nós assistimos diariamente a fenómenos opostos: os processos biológicos dos seres vivos trabalham incessantemente, e com sucesso, para estruturar a matéria em níveis elevados de organização. A actividade económica também: desde os minérios que transformamos em objectos e máquinas sofisticados, até ao incessante trabalho administrativo de arrumar letras em complexos estruturados de palavras, e papéis impressos ou manuscritos em estruturadíssimos arquivos (físicos ou electrónicos), tudo parece caminhar do nível menos complexo para o mais complexo.

Pois é, dizem os físicos, mas por cada um desses processos de organização e estruturação ocorre um outro processo de sentido inverso, que não só anula o efeito do primeiro mas que o ultrapassa, sendo o saldo final favorável à entropia.

William Krehm oferece-nos alguns exemplos: “a pressão da crescente população industrial sobre os alimentos que tanto preocupou David Ricardo depois das guerras napoleónicas e aumentou a renda fundiária na Grã Bretanha, foi ultrapassada com as “Corn Laws” e a revolução nos transportes. A necessidade de expansão dos mercados sentida pelo novo sistema industrial obteve como resposta num colonialismo agressivo e na exportação de capital. A crise dos anos 30 originada na insuficiência da procura foi resolvida pela revolução keynesiana. As técnicas keynesianas, pelo seu lado, contribuíram para a expansão do sector público ao ponto de adulterarem o sistema de sinalização (preços) do mercado. Mas, por volta dos anos 70, o sistema de preços já não tinha mais território para esta fuga em frente: “a solução que se arranjou para enfrentar aquela acumulação de entropia foi uma cruzada holística para inverter tudo o que tinha ocorrido desde os anos 30, e o resultado foi o encolher forçado dos serviços públicos, a desregulação do comércio e dos capitais, o refazer da história, a linguagem e a moralidade da sociedade impondo uma liberdade total a tudo o que pudesse conduzir a lucros mais elevados.”

É claro que o previsível esgotamento dos recursos minerais, particularmente os energéticos, e as ameaças de alterações climáticas catastróficas, temas maiores da agenda ecológica, encaixam bem no processo entrópico: a actividade económica dá origem a novos produtos e a soluções para novos e velhos problemas (para as doenças, antigas e novas, a farmacologia e a bio-tecnologia, por exemplo) mas à custa da desestruturação de outros sistemas, o que, em última análise, conduzirá à morte do conjunto (recordam-se do Relatório do Clube de Roma e das propostas de “crescimento zero”? - veja aqui um resumo) Esta foi uma das hipóteses desenvolvidas por Georgescu-Roegen e apresentada no seu livro “La décroissance. Entropie - Écologie – Économie”, cujo texto se encontra disponível na net neste site. Veja-se também o modelo da ampulheta de Georgescu-Roegen (clicando no desenho).

Tudo isto parece simultaneamente muito poético e pouco científico, particularmente devido ao empenhamento pós-moderno nas novas praxis. Mas não deixa de merecer um olhar atento.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Emagrece e aparece!


Um estudo da Universidade de York (Toronto, Canadá), apoiado na tese do papel do cortex pré-frontal para a tomada de decisões, sugere que anomalias nos processos corticais e sub-corticais que regulam a inibição de "satisfações-de-curto-prazo" quando a consequências de longo prazo são prejudiciais, podem explicar as (más) decisões de escolha de comida na nossa cultura, dominada por alimentos saborosos mas exageradamente calóricos - o que explicaria parte dos casos de obesidade.

O estudo testou positivamente a correlação entre a existência de dificuldades de tomada de decisão e a tendência para comer demais. Por este andar os obesos arriscam-se, também, a que não confiem neles para os negócios.

Decision-Making Deficits and Overeating: A Risk Model for Obesity

Britannia, rule the oil


O Economist acha que a economia inglesa está melhor preparada do que a de outros países industrializados para enfrentar com sucesso a alta do preço do petróleo. Por um lado, e relativamente aos choques dos anos 70, tornou-se menos dependente daquela fonte energética (veja-se no gráfico o indicador de intensidade de consumo, a mais favorável do G7). Por outro lado, entre os grandes, só o Canadá apresenta um melhor saldo comercial quanto ao comércio do viscoso.

Crescer não chega

O PNB americano cresceu 3,7 % no 3º trimestre de 2004 [taxa anualizada], razoavelmente acima dos 3,3 % do trimestre anterior. O "Economist", no entanto, encara com optimismo moderado esta perfomance, baseada essencialmente no crescimento do consumo, dado o alargamento do défice comercial e a desaceleração da variação de stocks.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Leituras sobre Jesus Cristo

Já farto das tretas de Dan Brown ("O Código Da Vinci") fiquei contente por saber que estava traduzido em português um livro sobre "A Verdadeira História de Jesus". Quem o dizia eram vários responsáveis da Igreja Católica, num programa radiofónico de Carlos Pinto Coelho. Comprei o livro (Editorial Notícias, autor: E.P.Sanders) que de facto parece ser um exercício sério de busca da verdade histórica sobre a vida de Jesus.

Impressionou-me o facto de Jesus ter acreditado que a vinda do "reino de Deus" à terra estava para breve, e de os discípulos terem conversado com ele sobre pormenores práticos do tipo: como é que chego lá, em que lugar é que vou ficar sentado (relativamente a Deus, é claro). Jesus Cristo lá ia respondendo às questões com umas evasivas: "eu sou o caminho", ou "a casa de Deus tem muitos quartos", etc., que hoje são inteligentemente lidas como metáforas.

O corpus da religião católica, na realidade, não nasceu "completo" com Jesus Cristo, o qual, em termos teológicos, pouco mais representava do que uma ligeira variante do Judaismo, incorporando profecias e aspirações colectivas comuns a outras seitas da época. Ele foi sendo construído ao longo dos séculos, a partir da imagem fortemente idealizada de Cristo e da sua deriva apostólica. Isso não quer dizer que seja menos verdadeira: pelo contrário, a ideia de que existe uma "verdade histórica" sobre Jesus Cristo que, uma vez revelada (ou descoberta) permitiria reconduzir a religião Católica a uma pureza inicial, é que não passa de um mito.

Promoção da ciência


Gosto deste anúncio de promoção de uma revista científica para miúdos:

Também interessante, o blog sobre ciência para jovens: O DNA vai à escola.

Toca a apagar os graffiti, já!

Um estudo publicado no The Economic Journal do corrente mês (Novembro, 2004) encontrou uma correlação negativa entre a taxa de criminalidade relativa a "danos na propriedade" e os preços dos imóveis. Curiosamente não foi encontrada correlação significativa entre o número de assaltos e o valor das propriedades.

Uma explicação possível relaciona-se com a diferente visibilidade destes actos: os assaltos não deixam marcas visíveis, mas o vandalismo, os graffiti e outro danos sobre as propriedades podem ser tomados como sinais ou sintomas de uma vizinhança problemática.

Caros proprietários, toca a apagar diligentemente os graffiti e a reparar essas cancelas e vidros partidos!

O artigo, em ficheiro pdf, encontra-se disponível em: The Costs of Urban Property Crime.