quarta-feira, novembro 10, 2004
Ordens: polícias das Universidades?
Luís Conraria, na sequência do Professorices, levantam o problema do corporativismo das Ordens profissionais, em termos com que concordo. No entanto é possível que seja o mau funcionamento de alguns dos mecanismos da nossa vida colectiva que está a alimentar esta corporativice (ou corporativite).
Por exemplo: estarão as Universidades a desempenhar suficientemente bem o papel da avaliação e graduação dos conhecimentos? Ou: existe uma razoável uniformidade, entre as diversas Universidades e para cursos equivalentes, dos sistemas de avaliação? No caso de não ser assim, criam-se argumentos favoráveis ao crivo suplementar das Ordens.
Mas não me parece que seja solução, para tais problemas, a criação de novos exames e novos estágios, porque então deixamos de ter um problema para ter dois: nas Universidades e nas Ordens.
A situação chega ao ridículo, como é o caso da Ordem dos Arquitectos, de se pronunciarem sobre o conteúdo das disciplinas, propondo alterações, como condição para a famosa “creditação”, ou “acreditação”. A Ordem dos Economistas também se está a pôr em bicos de pés, com esse esquema das creditações dos cursos, tentando fazer-se necessária, quiçá imprescindível: é sempre a velha luta por uma fatia do poder. Conheço um caso de recusa de inscrição, nesta Ordem, de um licenciado em Gestão do Sector Público (do ISCSP) por “não ser da área da Economia”.
Creio, no entanto, que as Ordens podem ser úteis em aspectos deontológicos relacionados com a prática profissional, e também na definição de estratégias para o ensino, mas a montante da Academia e não como polícias à porta das Universidades.
Economia, Imperialismo e Drogas
O Imperialismo da Economia define-se como a convicção de que o núcleo central da Economia – a teoria da escolha – é, em princípio, aplicável a todo o comportamento humano. Por exemplo: economistas (como Gary Becker) explicando fenómenos como a descriminação racial, o crime ou o casamento, por aplicação da teoria económica.
Será isto sequer um problema? A Antropologia e a Sociologia também podem explicar as “compras” feitas por um consumidor num qualquer centro comercial. A divisão da realidade em “disciplinas” é puramente artificial, por isso não é de estranhar que as fronteiras se esboroem com facilidade. Já me parece inadequado afirmar que só existe uma ciência social: a Economia.
A propósito desta “invasão” de outras áreas disciplinares pela Economia, refira-se o estudo de Becker, Grossman e Murphy sobre The Economic Theory of Illegal Goods: The Case of Drugs.
O estudo começa por demonstrar que, sendo o valor social de um bem inferior ao seu valor privado, a sociedade preferirá que o consumo se torne legal, restringindo o consumo através de uma taxa monetária penalizadora. No entanto, reconhece que esta conclusão é contraditória com o facto, observado, da ilegalização, ao longo da história, do consumo de drogas, da prostituição e do jogo, por exemplo.
Os autores acreditam que a explicação se encontra nos diferentes impactos destas duas estratégias na classe média, por um lado, e nas classes mais pobres, por outro. A classe média preferiria a ilegalização, as classes mais pobres prefeririam a taxação. A ilegalização é um dissuasor mais efectivo para classes com maiores rendimentos: as penas de prisão são socialmente mais gravosas, enquanto que o seu maior rendimento torna a taxação menos efectiva. Passa-se o oposto com os mais pobres. Como a classe média tem maior poder político do que os pobres, é esta a opção que tem sido adoptada.
Antes do degelo
Escreveu Agustina Bessa-Luís:
"Não é o amor que interessa aos homens, mas as crenças naturais na capacidade de sentir. Isso explica como pessoas de tão elevada linhagem mental, como Rousseau, se deixasse manobrar pela sua governanta, que era analfabeta e o meteu numa série de intrigas vergonhosas com os amigos. Ela decerto desencadeou funções do seu cérebro que não são as que determinam o conhecimento. Funções do inconsciente em que o tempo não tem medida e é intemporal. É possível que as mulheres exerçam uma influência para além de qualquer razão nesse inconsciente que é a única barreira perante a morte."
Esta senhora, já se sabe, com o seu arzinho de camponesa inofensiva, avança com um bisturi em cada mão e vai revolvendo as entranhas do ser humano, até um ponto em que os despojos ficam irreconhecíveis - ou em que nós já não os queremos reconhecer.
Este discurso agustiniano cola muito mal ao paradigma dominante de que os homens e as mulheres são (ou devem ser) iguais, apesar de todas as evidências em contrário. Parece remeter para um passado próximo em que a mulher era, em termos económicos, a escrava do homem, a empregada do homem - os livros estão repletos de situações desse tipo. Mas a análise sibilina parece alcançar um território mais longínquo, tão longínquo que mal distinguimos o que supostamente nos é apontado, embora queiramos muito ver o que é na realidade.
"Antes do degelo" significa o quê? Antes da idade adulta? Antes da civilização? Antes da hominização? Antes do conhecimento?
[Antes do Degelo, Agustina Bessa-Luís, 2004 (página 221)]
terça-feira, novembro 09, 2004
Porquê a guerra? Porque sim.

Nothing for Money: artigo de Paul Krugman (de 14 de Março de 2003) onde e ele explica a alguns americanos preocupados que não é por causa do conflito Euro-versus-Dolar que os EUA vão para a Guerra.
"Portanto, esta particular teoria da conspiração está errada. Então, perguntais vós, porque está esta gente tão determinada em ter a sua guerra? A resposta é porque sim. Apenas porque sim."
Crescimento económico
Artigo de Paul Romer sobre Economic Growth: "o crescimento económico ocorre sempre que as pessoas pegam em recursos e os transformam em algo que é mais valioso", mas com ênfase na criatividade: "cada nova geração apercebe-se dos obstáculos colocados ao crescimento pela limitação dos recursos e efeitos colaterais indesejáveis [como a poluição] caso não sejam descobertas novas ideias". Trata-se de um artigo para uma enciclopédia - The Fortune Encyclopedia of Economics - e recorre a uma curiosa metáfora fisico-quimico-culinária.
FMI em auto-avaliação
O Diário de Notícias faz referência a um estudo realizado por dois investigadores do FMI, Catia Batista e Juan Zalduendo, segundo o qual "as previsões de crescimento avançadas pelo Fundo Monetário Internacional têm pecado por excesso de optimismo".
O estudo, Can the IMF's Medium-Term Growth Projections Be Improved?, desenvolve uma variante do modelo de crescimento neoclássico que, embora não respondendo às críticas que lhe têm sido feitas - e que são sumariamente referidas no estudo - tenta "rodear" algumas da limitações. Os investigadores reconhecem que as previsões do FMI tiveram um "fraco" desempenho em algumas regiões e que é possível melhorar os instrumentos de previsão de crescimento utilizados.
segunda-feira, novembro 08, 2004
Que românticos que nós somos

Numa entrevista a Paula Rego a jornalista Ana Sousa Dias, num estilo entre o perguntar e o insinuar cúmplice, opinou que lhe devia custar muito separar-se das obras, ao que a pintora retorquiu: não; vender é uma maravilha.
Pois é, mas a intelectualidade continua a achar, romanticamente, que a arte é celestial e o comércio é vil. O que sentirá esta gente quando recebe o ordenado: vergonha?
Nova "marca" com fraco design
O IPIMAR oferece uma camisola a quem encontrar uma destas marcas que aquele organismo de investigação andou a colocar em sardinhas durante o Verão. Para além da marca tem de se indicar a data e local onde foi encontrada, bem como a data e local de captura do sardináceo. Acho muito bem o apelo à colaboração da população, mas parece-me que quem não souber da campanha e encontrar apenas a marca na sardinha não vai longe apenas com a informação ali impressa.
Entropia e (de)crescimento
Não me parece difícil considerar a metáfora do “não há almoços grátis” como o equivalente, para a Economia, da 1ª lei da termodinâmica. Mais problemática é a transposição para a Economia do fenómeno físico da entropia – ou da 2ª lei da termodinâmica. No entanto é isso precisamente que tentam fazer economistas como Nicholas Georgescu-Roegen, Hazel Henderson e William Krehm.
Georgescu-Roegen (1906-1994), economista romeno, escreveu sobre este assunto o livro “The Entropy Law and the Economic Process”, de 1971. Para além de ter procurado integrar a economia e a termodinâmica, Georgescu-Roegen também o fez com a biologia evolutiva e a ecologia, pelo que é conhecido como o pai da economia ecológica:
Em termos de metáfora, leis como a da queda tendencial da taxa de lucro (de Marx) e dos rendimentos decrescentes podem ser considerados como entropias do sistema económico. E parece também evidente que tem de se reflectir na actividade económica a entropia que ocorre no mundo material. Mas estes economistas vão mais longe e tentam instituir a entropia como lei económica.
A lei física da entropia é bastante contra-intuitiva e parece ser negada a todo o momento perante os nossos olhos: dizem-nos que uma vez misturados dois líquidos de cores diferentes, eles já não se voltam a separar: o nível de organização da matéria corre inexoravelmente de patamares superiores para patamares inferiores, e chegará um dia em que tudo estará “misturado”, inerte e imóvel. Porém, nós assistimos diariamente a fenómenos opostos: os processos biológicos dos seres vivos trabalham incessantemente, e com sucesso, para estruturar a matéria em níveis elevados de organização. A actividade económica também: desde os minérios que transformamos em objectos e máquinas sofisticados, até ao incessante trabalho administrativo de arrumar letras em complexos estruturados de palavras, e papéis impressos ou manuscritos em estruturadíssimos arquivos (físicos ou electrónicos), tudo parece caminhar do nível menos complexo para o mais complexo.
Pois é, dizem os físicos, mas por cada um desses processos de organização e estruturação ocorre um outro processo de sentido inverso, que não só anula o efeito do primeiro mas que o ultrapassa, sendo o saldo final favorável à entropia.
William Krehm oferece-nos alguns exemplos: “a pressão da crescente população industrial sobre os alimentos que tanto preocupou David Ricardo depois das guerras napoleónicas e aumentou a renda fundiária na Grã Bretanha, foi ultrapassada com as “Corn Laws” e a revolução nos transportes. A necessidade de expansão dos mercados sentida pelo novo sistema industrial obteve como resposta num colonialismo agressivo e na exportação de capital. A crise dos anos 30 originada na insuficiência da procura foi resolvida pela revolução keynesiana. As técnicas keynesianas, pelo seu lado, contribuíram para a expansão do sector público ao ponto de adulterarem o sistema de sinalização (preços) do mercado. Mas, por volta dos anos 70, o sistema de preços já não tinha mais território para esta fuga em frente: “a solução que se arranjou para enfrentar aquela acumulação de entropia foi uma cruzada holística para inverter tudo o que tinha ocorrido desde os anos 30, e o resultado foi o encolher forçado dos serviços públicos, a desregulação do comércio e dos capitais, o refazer da história, a linguagem e a moralidade da sociedade impondo uma liberdade total a tudo o que pudesse conduzir a lucros mais elevados.”
É claro que o previsível esgotamento dos recursos minerais, particularmente os energéticos, e as ameaças de alterações climáticas catastróficas, temas maiores da agenda ecológica, encaixam bem no processo entrópico: a actividade económica dá origem a novos produtos e a soluções para novos e velhos problemas (para as doenças, antigas e novas, a farmacologia e a bio-tecnologia, por exemplo) mas à custa da desestruturação de outros sistemas, o que, em última análise, conduzirá à morte do conjunto (recordam-se do Relatório do Clube de Roma e das propostas de “crescimento zero”? - veja aqui um resumo) Esta foi uma das hipóteses desenvolvidas por Georgescu-Roegen e apresentada no seu livro “La décroissance. Entropie - Écologie – Économie”, cujo texto se encontra disponível na net neste site. Veja-se também o modelo da ampulheta de Georgescu-Roegen (clicando no desenho).
Tudo isto parece simultaneamente muito poético e pouco científico, particularmente devido ao empenhamento pós-moderno nas novas praxis. Mas não deixa de merecer um olhar atento.
sexta-feira, novembro 05, 2004
Emagrece e aparece!
Um estudo da Universidade de York (Toronto, Canadá), apoiado na tese do papel do cortex pré-frontal para a tomada de decisões, sugere que anomalias nos processos corticais e sub-corticais que regulam a inibição de "satisfações-de-curto-prazo" quando a consequências de longo prazo são prejudiciais, podem explicar as (más) decisões de escolha de comida na nossa cultura, dominada por alimentos saborosos mas exageradamente calóricos - o que explicaria parte dos casos de obesidade.
O estudo testou positivamente a correlação entre a existência de dificuldades de tomada de decisão e a tendência para comer demais. Por este andar os obesos arriscam-se, também, a que não confiem neles para os negócios.
Decision-Making Deficits and Overeating: A Risk Model for Obesity
Britannia, rule the oil
O Economist acha que a economia inglesa está melhor preparada do que a de outros países industrializados para enfrentar com sucesso a alta do preço do petróleo. Por um lado, e relativamente aos choques dos anos 70, tornou-se menos dependente daquela fonte energética (veja-se no gráfico o indicador de intensidade de consumo, a mais favorável do G7). Por outro lado, entre os grandes, só o Canadá apresenta um melhor saldo comercial quanto ao comércio do viscoso.

Crescer não chega
O PNB americano cresceu 3,7 % no 3º trimestre de 2004 [taxa anualizada], razoavelmente acima dos 3,3 % do trimestre anterior. O "Economist", no entanto, encara com optimismo moderado esta perfomance, baseada essencialmente no crescimento do consumo, dado o alargamento do défice comercial e a desaceleração da variação de stocks.
quinta-feira, novembro 04, 2004
Leituras sobre Jesus Cristo
Já farto das tretas de Dan Brown ("O Código Da Vinci") fiquei contente por saber que estava traduzido em português um livro sobre "A Verdadeira História de Jesus". Quem o dizia eram vários responsáveis da Igreja Católica, num programa radiofónico de Carlos Pinto Coelho. Comprei o livro (Editorial Notícias, autor: E.P.Sanders) que de facto parece ser um exercício sério de busca da verdade histórica sobre a vida de Jesus.
Impressionou-me o facto de Jesus ter acreditado que a vinda do "reino de Deus" à terra estava para breve, e de os discípulos terem conversado com ele sobre pormenores práticos do tipo: como é que chego lá, em que lugar é que vou ficar sentado (relativamente a Deus, é claro). Jesus Cristo lá ia respondendo às questões com umas evasivas: "eu sou o caminho", ou "a casa de Deus tem muitos quartos", etc., que hoje são inteligentemente lidas como metáforas.
O corpus da religião católica, na realidade, não nasceu "completo" com Jesus Cristo, o qual, em termos teológicos, pouco mais representava do que uma ligeira variante do Judaismo, incorporando profecias e aspirações colectivas comuns a outras seitas da época. Ele foi sendo construído ao longo dos séculos, a partir da imagem fortemente idealizada de Cristo e da sua deriva apostólica. Isso não quer dizer que seja menos verdadeira: pelo contrário, a ideia de que existe uma "verdade histórica" sobre Jesus Cristo que, uma vez revelada (ou descoberta) permitiria reconduzir a religião Católica a uma pureza inicial, é que não passa de um mito.
Promoção da ciência
Gosto deste anúncio de promoção de uma revista científica para miúdos:
Também interessante, o blog sobre ciência para jovens: O DNA vai à escola.
Toca a apagar os graffiti, já!
Um estudo publicado no The Economic Journal do corrente mês (Novembro, 2004) encontrou uma correlação negativa entre a taxa de criminalidade relativa a "danos na propriedade" e os preços dos imóveis. Curiosamente não foi encontrada correlação significativa entre o número de assaltos e o valor das propriedades.
Uma explicação possível relaciona-se com a diferente visibilidade destes actos: os assaltos não deixam marcas visíveis, mas o vandalismo, os graffiti e outro danos sobre as propriedades podem ser tomados como sinais ou sintomas de uma vizinhança problemática.
Caros proprietários, toca a apagar diligentemente os graffiti e a reparar essas cancelas e vidros partidos!
O artigo, em ficheiro pdf, encontra-se disponível em: The Costs of Urban Property Crime.
Uma explicação possível relaciona-se com a diferente visibilidade destes actos: os assaltos não deixam marcas visíveis, mas o vandalismo, os graffiti e outro danos sobre as propriedades podem ser tomados como sinais ou sintomas de uma vizinhança problemática.
Caros proprietários, toca a apagar diligentemente os graffiti e a reparar essas cancelas e vidros partidos!
O artigo, em ficheiro pdf, encontra-se disponível em: The Costs of Urban Property Crime.
quinta-feira, outubro 28, 2004
Exames para quê ?
Por causa dos atrasos no início do ano lectivo, os paizinhos (e as maezinhas) exigem que os estudantes do secundário não tenham exames nacionais no 9º ano. Os sindicatos, cínicos, acham que "seria mais prudente não fazer os exames". A Ministra da Educação, teimosa, insiste em torturar as criancinhas, mas garantindo que praticamente não haverá chumbos ("dá para que não haja problemas de reprovações" ... "quem vier com nota 5 passa sempre"). Assim vai o país. Não se poderia fazer uma lei que atribuisse os diplomas logo à nascença ? Poupava-se dinheiro e poucas vergonhas.
terça-feira, outubro 26, 2004
Neuroeconomia: o regresso do "animal spirits"
O mecanismo do marcador somático parece coerente com a teoria da racionalidade limitada. Em Economia, o pressuposto das decisões racionais levanta dois problemas importantes:
- os agentes económicos não podem dispor de toda a informação relevante e
- ainda que dispusessem, a quantidade de informação seria tão grande que o cérebro não teria capacidade para a processar.
Pode ser que o trilho adaptativo da racionalidade limitada seja percorrido com a ajuda da memória emocional proposta por António Damásio. No seu livro "O Erro de Descartes" é descrita uma experiência laboratorial com humanos, o "jogo de cartas", que o próprio Damásio admite ser uma simulação da actividade económica. Os pacientes com disfunções no sistema emocional não conseguem "adivinhar" as regras do jogo, ao contrário dos que não têm esse problema, os quais acabam por "adivinhar" as regras de um jogo aparentemente caótico, onde os impulsos emocionais de "ganhar" ou "perder" ajudam a perceber a racionalidade escondida.
Peter Drucker, nas suas memórias, apresenta um exemplo muito curioso dum velho "capitão da indústria" que contraria a análise da sua equipa de gestores, favoráveis a um investimento financeiro "infalível", que tinha inclusivamente uma espécie de aval do Banco de Inglaterra. Resultado: os gestores estavam enganados. Questionado sobre o que o teria levado a "descobrir" a verdade, o experiente homem terá dito qualquer coisa como "desconfiei porque o tipo tinha respostas para tudo". Este é o tipo de comportamento que costumamos rotular como "intuitivo", pelos vistos erradamente: em lugar da intuição está, provavelmente, o mecanismo do marcador somático a ajudar à tomada de decisão.
As "funções de surpresa potencial" de George Shackle também poderiam ser explicadas pelo marcador somático. É curioso como estas "intuições", desprezadas pelos economistas por causa da sua aparência pouco científica (desprezo que, em si mesmo, traduz uma atitude pouco científica) parecem agora ser mais "legitimas" a partir de experiências laboratoriais controladas. Porém - suprema ironia - é bem provável que tudo isto venha dar razão àqueles que construiram modelos matemáticos do comportamento económico "não realistas". A ciência tem destas coisas. na altura da sua formulação, não havia modelo mais "afastado da realidade" do que a teoria da atracção universal de Newton: era "evidente" que não havia nenhum meio de transmitir a informação necessária à atracção, nenhum cabo a ligar os planetas, e no entanto... Newton, de resto, estava consciente desse "ponto fraco".
A Neuroeconomia apresenta-se assim como um caminho bastante promissor. Quem sabe se, depois de se terem tornados "matemáticos", não terão os economistas de se especializar agora em Medicina...
Um bom texto sobre este assunto: Implications of the Affect Heuristic for Behavioral Economics de Paul Slovic (2002)
Quem também prece ganhar pontos com estes desenvolvimentos são as teorias darwinianas: o facto do organismo utilizar como elemento relevante do mecanismo racional um outro mecanismo "inferior" (as emoções secundárias, que parece que partilhamos com outros mamíferos...), encaixa bem no modelo evolutivo em que órgãos de uma determinada fase da evolução são adaptados para o funcionamento de órgãos que surgem posteriormente no processo evolutivo.
Razão tinha o Keynes com o seu "animal spirits". Seria também intuição do Lord?
"Even apart from the instability due to speculation, there is the instability due to the characteristic of human nature that a large proportion of our positive activities depend on spontaneous optimism rather than mathematical expectations, whether moral or hedonistic or economic. Most, probably, of our decisions to do something positive, the full consequences of which will be drawn out over many days to come, can only be taken as the result of animal spirits - a spontaneous urge to action rather than inaction, and not as the outcome of a weighted average of quantitative benefits multiplied by quantitative probabilities."Sendo muito bem concebido (ao longo de milhões de anos) o mecanismo não é infalível. Além disso foi desenvolvido para uma realidade envolvente diversa daquela que construimos com a sociedade mercantil. Provavelmente daremos um grande avanço no conhecimento dos mecanismos económicos e com isso ficaremos ainda mais ignorantes, porque mais conscientes da nossa ignorância.
"... human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectation, since the basis for making such calculations does not exist ... it is our innate urge to activity that makes the wheel go around ..."Keynes, Teoria Geral
quinta-feira, outubro 21, 2004
Atenas: Medalha de Bronze para a Econometria
Usando métodos econométricos, Andrew Bernard e Meghan Busse fizeram uma previsão de medalhas para o Jogos Olímpicos de Sidney que se aproximou muito do resultado efectivo. Um artigo com explicitação do modelo foi publicado na Review of Economics and Statistics, vol. 86, no.1: "Who Wins the Olympic Games: Economic Resources and Medal Totals" (pdf).
Uma previsão para Atenas, com o mesmo modelo, encontra-se aqui. Neste caso parece que os econometristas não passaram da medalha de Bronze; a previsão e a realidade para os primeiros 20 países é a seguinte:
| # | País | Ouro | Prata | Bronze | Total | Previsões | |
| Ouro | Total | ||||||
| 1 | EUA | 35 | 39 | 29 | 103 | 37 | 93 |
| 2 | China | 32 | 17 | 14 | 63 | 27 | 57 |
| 3 | Russia | 27 | 27 | 38 | 92 | 29 | 83 |
| 4 | Austrália | 17 | 16 | 16 | 49 | 14 | 54 |
| 5 | Japão | 16 | 9 | 12 | 37 | 6 | 18 |
| 6 | Alemanha | 14 | 16 | 18 | 48 | 13 | 55 |
| 7 | França | 11 | 9 | 13 | 33 | 12 | 37 |
| 8 | Italia | 10 | 11 | 11 | 32 | 12 | 33 |
| 9 | Coreia do Sul | 9 | 12 | 9 | 30 | 7 | 27 |
| 10 | Reino Unido | 9 | 9 | 12 | 30 | 10 | 27 |
| 11 | Cuba | 9 | 7 | 11 | 27 | 7 | 25 |
| 12 | Ucrania | 9 | 5 | 9 | 23 | 1 | 20 |
| 13 | Hungria | 8 | 6 | 3 | 17 | 5 | 14 |
| 14 | Roménia | 8 | 5 | 6 | 19 | 8 | 23 |
| 15 | Grécia | 6 | 6 | 4 | 16 | 10 | 27 |
| 16 | Noruega | 5 | - | 1 | 6 | 1 | 8 |
| 17 | Países Baixos | 4 | 9 | 9 | 22 | 9 | 21 |
| 18 | Brasil | 4 | 3 | 3 | 10 | 1 | 12 |
| 19 | Suécia | 4 | 1 | 2 | 7 | 2 | 11 |
| 20 | Espanha | 3 | 11 | 5 | 19 | 3 | 11 |
terça-feira, outubro 19, 2004
Preferências reveladas...
Temos de admitir que a operação de marketing do manual de economia "Economics" do Paul Samuelson é inteligente. Note-se: o prestígio do produto anda intimamente associado à imagem do nobelizado velhinho, certo? Mas, e se o homem morre? O produto apodrece? É bem provável.
Daí que em 1985 a fábrica do "Economics" tenha adicionado ao Paul um (mais) jovem e saudável William. "Assumindo" que um destes dias se dá o passamento do velhinho, lá estará o Nordhaus para dar continuidade às vendas; repare-se que o processo pode ser mantido ad eternum, adicionando sempre mais um William à fotografia.
Um pouco mais subtil (ma non tropo) é a cosmética que o conteúdo do livro - a designada "matéria" - vai sofrendo. Lá vão decaindo os modelos keynesianos e outros "souvenirs" do século XX, em troca não se percebe bem de quê. Entretanto as vendas vão revelando as preferências do consumidor, quod erat demonstrandum.
Um artigo critico-apologético do manual, escrito por Mark Skousen, pode ser consultado em: The Perseverance of Paul Samuelson's Economics
Daí que em 1985 a fábrica do "Economics" tenha adicionado ao Paul um (mais) jovem e saudável William. "Assumindo" que um destes dias se dá o passamento do velhinho, lá estará o Nordhaus para dar continuidade às vendas; repare-se que o processo pode ser mantido ad eternum, adicionando sempre mais um William à fotografia.
Um pouco mais subtil (ma non tropo) é a cosmética que o conteúdo do livro - a designada "matéria" - vai sofrendo. Lá vão decaindo os modelos keynesianos e outros "souvenirs" do século XX, em troca não se percebe bem de quê. Entretanto as vendas vão revelando as preferências do consumidor, quod erat demonstrandum.
Um artigo critico-apologético do manual, escrito por Mark Skousen, pode ser consultado em: The Perseverance of Paul Samuelson's Economics
A mão invisível de Deus... ou do Diabo?
No Simbiótica João escreve que a metáfora smithiana da "mão invisível" teria originalmente conotações teísticas, significando apenas que "é por obra e graça de Deus que o Homem pretende enriquecer. Dessa forma permite também enriquecer os seus semelhantes", e que a interpretação actual que identifica a mão invisível com o mercado selvagem e a não intervenção governamental na Economia é "perfeitamente abusiva".
Não me parece. Como muito bem explica - e fundamenta - Albert Hirshman no seu livro “As Paixões e os Interesses” [já aqui referido no post "As paixões compensadoras"] o egoísmo e a ganância do capitalista nascente eram inicialmente vistas como um “mal menor” e por isso aceitáveis, ou mesmo desejáveis, como alternativa a outros meios de obtenção de poder e riqueza como a guerra ou o assassínio, etc. Dificilmente se pode atribuir a Deus a pretensão humana de enriquecer (a não ser no sentido da omnipotência: se Deus criou tudo, então tudo lhe pode ser atribuído; mas não me parece…).
Creio que neste caso os direitos autorais não revertem para Deus mas sim para o Diabo. Salvo melhor opinião.
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