sexta-feira, julho 09, 2004

Coisas improváveis

Querendo apresentar exemplos absurdos de coisas improváveis que acontecem perante os nossos olhos e o nosso espanto, o artigo do The Economist sobre 'Emerging markets, emerging risks' cita a popularidade duradoura de Cliff Richard e a vitória da Grécia no Euro 2004. Portugal agradece as referências, ainda que indirectas.

quinta-feira, julho 08, 2004

Retoma? Mas qual retoma?

É oficial: Vitor Constâncio garante que a retoma se está a dar pelo lado da procura interna, precisamente o tipo de retoma que se considerava indesejável. Diz o Governador do Banco de Portugal que é uma consequência do futebolístico Euro 2004: crescem o Consumo e o Investimento.

Que dirão agora os defensores da maioria que tão ardentemente defenderam a política de "sacrifícios" explicando que essa era a via certa para a única recuperação saudável? Ou seja: sobretudo teria de se evitar que a procura interna aumentasse antes da externa.

Mal no retrato ficam igualmente os socialista e bloquistas, que garantiam que as medidas do governo cessante iriam paralizar o país. Ou seja: há argumentos para todos e para que a confusão se perpetue - no país onde ninguém se engana e todos têm razão.

Temendo-se que o nível de endividamento se encontre positivamente associado com a perda de flexibilidade da economia, esta retoma pode não ser uma boa notícia.

As paixões compensadoras

Uma tese interessante: a crítica de Friedman e Fukyama seria apenas dirigida aos países em desenvolvimento, e não aos países desenvolvidos.

Se isto fosse verdade, então teriam de existir (pelo menos) duas teorias económicas diferentes: uma para os ricos, outra para os pobres. A Economia seria apenas contingencial. Mas o certo é que Fukyama também se refere aos países desenvolvidos, citando os escândalos Enron e WorldCom.

Hayek e outros na mesma linha mostraram como as burocracias socialistas e o planeamento racional totalitário eram caminhos errados, e os acontecimentos posteriores sempre lhes deram razão. Agora, se se provar que a "mão invisível" também não leva a lado nenhum, isso não significa que os "estatistas" tenham razão, mas apenas que o caminho tem de ser procurado noutro lado.

Em As Paixões e os Interesses ("argumentos políticos para o capitalismo antes de seu triunfo") Albert Hirschman mostra como, na fase inicial do capitalismo, a "mão invisível" era vista apenas como um escape "relativamente melhor" do que as guerras e os crimes, para a natureza violenta do ser humano. É a tese das "paixões compensadoras": procurar a riqueza (e o poder ?) através dos negócios sempre seria melhor do que através de outros meios moralmente mais reprováveis. Posteriormente essa força motora do capitalismo foi travestida numa espécie de "bondade criadora" (de riqueza, entenda-se). Ao que parece, estamos agora a descobrir o demónio por trás do ídolo.

terça-feira, julho 06, 2004

Mais ou menos Estado

A polémica em torno de “mais Estado” ou “menos Estado” voltou a aquecer com o artigo de Francis Fukuyama publicado pelo 'The Observer' no passado dia 4. Comentado pelo Causa Liberal, pel’O Intermitente, pel’O Observador, e pelo Adufe, o título do artigo de Fukuyama não podia ser mais eloquente: “Bring back the state".

Os comentadores liberais apressaram-se a esclarecer que Fukuyama não defende o retorno do Estado, em termos de “mais Estado”, mas sim o reforço do exercício das suas competências com maior efectividade. Tudo se explicaria por recurso a duas palavras: o que Fukuyama defende é o reforço (strenght) do papel do Estado nalgumas áreas e não o alargamento a sua extensão (scope).

Jogos de palavras. Fukuyama afirma claramente no seu artigo que a era do “menos Estado” (que ele designa como a “era Reagan-Teacher”) está a terminar e o pêndulo oscilará agora em sentido oposto.

Razões desta mudança: enquanto que os grandes problemas do século XX tiveram origem em nações demasiadamente poderosas, tais como a Alemanha, o Japão e a ex-União Soviética (justificando-se então a defesa da diminuição do peso do Estado), muitos dos problemas actuais, tais como a pobreza, os refugiados, a violação dos direitos humanos, a sida e o terrorismo, são provocados por Estados muito fracos do Terceiro Mundo.

É certo que Fukuyama escreveu que “do ponto de vista do crescimento económico é melhor ter um Estado relativamente modesto em extensão mas forte na sua capacidade para realizar funções básicas tais como a manutenção da Lei e a protecção da propriedade”. Mas reconhece logo a seguir que não foi isso que aconteceu nos últimos anos. Aplicada a países em desenvolvimento, “a revolução Reagan-Teacher… teve um perverso efeito prejudicial”.

Somado à autocrítica de Milton Friedman [ver em pdf] que admitiu ter errado quando advogou como receita para as economias da ex-União Soviética: “privatizar, privatizar, privatizar”, o artigo de Fukuyama deixa os liberais em maus lençóis. Não admira, por isso, que o Causa Liberal faça um prudente aviso à navegação: as posições de Fukuyama não podem ser consideradas liberais. Aguarda-se o que os outros liberais, que rapidamente se colaram ao artigo do Fukuyama, terão a dizer a isto.