Com um extraordinário sentido de oportunidade, numa altura em que demasiadas famílias não conseguem sequer ter comer para se alimentar no dia a dia, o ministro da Agricultura lembrou-se de aconselhar or portugueses a atafulhar as despensas. Parece que são ordens da NATO, transmitidas pelo sr. ministro com uma impressionante clareza de ideias e fluidez discursiva:
«Esta iniciativa insere-se na preocupação que um país deve ter com a sua segurança nacional. Os países que integram a NATO têm a obrigação de se organizar sectorialmente em matéria de resposta em casos de acontecimentos naturais, de catástrofes, ou outras situações de natureza civil, que obriguem a que cada Estado faça activar todas as autoridades de protecção às populações. Para que isso aconteça tem que haver planeamento. Portugal, normalmente, as pessoas, os portugueses, nós não gostamos muito de planear, achamos que o improviso resolve todo o problema, e nesta matéria nunca planeámos, em termos de emergência alimentar, achámos sempre que à ultima hora se resolvia.»Notícia e video no Expresso
Vera Jardim, provedor da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, numa primeira reacção à falência da empresa Marsans, não teve papas na língua: tratava-se, sem qualquer dúvida, de um caso de polícia. Claro: empresa espanhola, falida...


Suponho que devem conhecer o argumento ricardiano a favor do comércio internacional: Portugal a produzir vinho, a Inglaterra panos, e depois toma-lá-dá-cá. Há uma versão moderna que mete uma advogada e a sua secretária: se a causídica for mais rápida a dactilografar e mais eficiente a arquivar processos do que a secretária, deve ela substituir-se à funcionária administrativa? Resposta: não! Porque o ganho/hora da advogada supera a ineficiência relativa da secretária (este exemplo, visto à lupa, revela um outro lado, sinistro, do argumento ricardiano: uns a especializarem-se em sectores com elevada incorporação tecnológica e de conhecimento, outros a marcar passo em sectores pouco qualificados). Toda esta conversa para justificar a publicação deste pequeno desenho. Imaginem quem é a Inglaterra e quem é Portugal.
Quando o ouvia dizer que mal dormia pensava se não seria daqueles que sabia mais a dormir do que acordado. Agora pode dormir descansado, depois de ter feito passar por cordeiro o pequeno parlamentar que o provocou. Igual a si própria, a Assembleia ofendida escorraçou o ensonado trabalhador, fez suas as profundas dores do pequeno provocador e, como sempre, pesou mais a emoção do momento do que a razão do País. A Casa da Chinfrineira aplicou o velho truque de passar por ter boquinha pequena ao escancarar a bocarra, por ela mesma ampliada, dum bandarilheiro que devia ter estado calado naquela altura, porque o lema ali é: quando um da Casa fala as visitas baixam as orelhas. Já a um parlamentar tudo é permitido e perdoado (como aconteceu recentemente com José Eduardo Martins) incluindo dormir em vez de trabalhar. O Parlamento é apenas isso: a válvula de escape da manha nacional, ela a quem todo o sucesso alheio ofende.


É muito referida, como um dos factores da mudança política ocorrida em Abril de 1974, a tese do general António de Spínola de que a guerra do Ultramar não podia ser ganha por meios militares, mas sim políticos, tese veiculada no seu livro "Portugal e o Futuro". Isto quereria dizer que os militares já não acreditavam na vitória. Mas os "capitães da indústria e das finanças" também não. António Champalimaud, na Assembleia Geral anual do Banco Pinto & Sotto Mayor, apresentou ao Grupo que liderava um "Novo programa de acção que assenta essencialmente no aproveitamento articulado de recursos de Moçambique, de Angola e da Metrópole":

